A endometriose é uma condição inflamatória crônica que afeta cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva, o que representa quase 190 milhões de pessoas no mundo. Embora a gravidez possa levar à judicialização das lesões e à melhora temporária dos sintomas em muitas pacientes, o impacto da doença nos desfechos obstétricos e neonatais ainda desperta preocupação e debate clínico.
Ao longo dos últimos anos, estudos apontaram associação entre endometriose e maior ocorrência de algumas complicações, como parto prematuro, pré-eclâmpsia e placenta prévia. Isso, porém, trouxe uma questão importante para a prática médica: mulheres com endometriose precisam necessariamente de um pré-natal mais intensivo?
Um consenso de especialistas publicado em 2026 no European Journal of Obstetrics & Gynecology and Reproductive Biology buscou justamente responder a essa questão. O estudo reuniu especialistas de 21 centros franceses e, a partir da análise das evidências disponíveis, estabeleceu recomendações para o acompanhamento de gestações espontâneas em mulheres com endometriose.
A principal mensagem é tranquilizadora: a endometriose, isoladamente, não deve transformar uma gestação de risco habitual em uma gestação de alto risco. Na ausência de outros fatores, o acompanhamento obstétrico de rotina continua sendo considerado adequado, evitando exames e intervenções adicionais sem benefício comprovado.
Isso não significa ignorar possíveis riscos. O cuidado deve ser individualizado, considerando o histórico da paciente, a extensão da doença, cirurgias anteriores e outros fatores clínicos. O consenso mantém a vigilância habitual da pressão arterial e do crescimento fetal e recomenda atenção às condições obstétricas que podem estar associadas à endometriose. Também orienta uma avaliação individualizada do risco de tromboembolismo e medidas de prevenção da hemorragia pós-parto.
Entre os achados mais consistentes da literatura está a associação com placenta prévia, condição em que a placenta se implanta na parte inferior do útero e pode cobrir parcial ou totalmente o colo uterino. Essa condição pode aumentar o risco de sangramento durante a gestação e influenciar na definição da via de parto.
A atenção merece ser ainda mais individualizada nas pacientes com endometriose infiltrativa profunda, forma da doença que pode atingir tecidos pélvicos mais profundos e órgãos como intestino, bexiga e ureteres. Alguns estudos sugerem associação mais forte entre esse tipo de endometriose e placenta prévia. Isso não significa que essas mulheres necessariamente terão complicações, mas que o conhecimento da extensão da doença e do histórico cirúrgico pode ser relevante para o planejamento obstétrico.
Outro aspecto frequentemente discutido é a via de parto. Mulheres com endometriose, especialmente aquelas com doença profunda, apresentam taxas mais elevadas de cesariana em alguns estudos. Entre os fatores envolvidos estão alterações placentárias, cirurgias pélvicas anteriores e aderências. A endometriose, porém, não constitui indicação automática de cesariana. A decisão deve considerar os achados da gestação, as condições obstétricas e o histórico de cada paciente.
O consenso reforça justamente a necessidade de equilíbrio. Embora alguns estudos indiquem aumento de determinados riscos obstétricos, não há evidências de que ampliar exames ou adotar medidas preventivas de forma indiscriminada melhore os resultados maternos e neonatais. Para parto prematuro, por exemplo, o documento não recomenda, apenas pela presença da endometriose, rastreamento rotineiro adicional do comprimento do colo uterino, uso profilático de progesterona ou restrição de atividades.
O cuidado não termina no nascimento do bebê. O consenso considera a possibilidade de contracepção hormonal nos primeiros dois meses após o parto, quando indicada e individualizada, como parte do manejo da endometriose. Nas mulheres que amamentam, a escolha do método e de qualquer tratamento medicamentoso deve considerar segurança, momento do puerpério, sintomas e planejamento reprodutivo.
A endometriose é uma doença crônica e sua história não termina com a concepção. Fertilidade, gestação, parto e puerpério fazem parte de uma mesma trajetória de cuidado. A boa notícia é que a maioria das mulheres com endometriose pode ter uma gestação saudável, sem necessidade de transformar automaticamente o pré-natal em um acompanhamento de alto risco.
Mais do que aumentar intervenções, o caminho apontado pelas evidências é conhecer a história da paciente, avaliar seus fatores de risco e oferecer um acompanhamento obstétrico consistente e individualizado. Na medicina, cuidar mais nem sempre significa fazer mais — significa fazer o que é necessário para cada mulher.
Dra. Giovana Fortunato é ginecologista, especialista em endometriose e infertilidade e professora da UFMT.




























