Ser corredora amadora não é apenas se aventurar no esporte, é aprender um jogo que pode custar a sua vida. Tem gente que pode achar isso exagero. Contudo, essa pessoa provavelmente não precisa acordar às 5h da manhã para correr e, antes de sair de casa, jogar um tabuleiro mental de riscos e estratégias.
Após lançar os dados, começam as perguntas e respostas que vão render avanços ou reveses. A primeira delas: vou sozinha? Se a resposta for sim, retorne duas casas e volte para a cama. Se a resposta for não, ande duas casas e troque de roupa.
A minha companhia é mulher ou homem? Se for homem, ande mais duas casas e calce o tênis. Se for mulher, volte duas casas e repense — porque, na prática, nem mesmo duas mulheres correndo juntas garantem segurança.
Vou correr dentro de um condomínio fechado ou na rua? Se for na rua, fique no mesmo lugar. Se for dentro de um condomínio, você precisa passar por uma prova antes de seguir: as ruas são iluminadas? Há segurança noturna? Você tem spray de pimenta na bolsa? (Sim, há corredoras no Instagram que recomendam correr com spray de pimenta no bolso para se proteger).
Se todas as respostas forem sim, você pode sair e fazer seu treino.
Agora, em uma segunda opção: você vai acompanhada de um homem e optou por correr na rua. A primeira pergunta é: o trajeto tem área específica — de pedestres ou ciclovias — destinada ao esporte? Se a resposta for não, volte uma casa e tire uma carta do centro do tabuleiro.
A carta diz: se a corrida for na rua e ela não tiver iluminação, volte para o início do jogo — ou mantenha o boleto da funerária em dia, pois poderá precisar em caso de atropelamento.
Eu sei que muita gente vai ler isso e achar uma bobagem. Alguns até dirão, com uma certeza ignorante, que a pessoa que corre nesse horário está assumindo o risco. Porém, esse risco não deveria existir se as pessoas tivessem garantido seu direito de ir e vir. Além disso, esse risco só existe porque vivemos em uma sociedade insegura — para todas as mulheres, inclusive as corredoras.
Será que um homem enfrenta o mesmo dilema? Será que, se ele for atacado por correr na rua, alguém vai culpá-lo por usar roupas coladas de madrugada? Será que ele é impedido de praticar um esporte apenas por ser homem?
Gostaria de lembrar que muitas mulheres trabalham em horário comercial e ainda são responsáveis pelos serviços domésticos e pelos filhos. Muitas têm apenas esse horário para treinar. E aí vem mais uma pergunta: se o esporte é saúde, por que nos é negado o direito de cuidar da nossa?
E para quem pensa que correr no parque seja a solução, informo: uma mulher foi estuprada no parque ao lado da minha casa, enquanto caminhava. Além disso, nem todos os bairros têm espaços apropriados para essa prática, e nem todo mundo pode morar em um condomínio fechado com infraestrutura esportiva.
Quando uma mulher decide correr, ela tem a oportunidade de refletir sobre o quanto o mundo é inseguro e como sua existência é ameaçada até nas coisas mais simples da vida — como a prática de um esporte.
Por isso, este texto não é só um desabafo — é um pedido: iluminação pública e segurança para todas nós. Seja na prática esportiva, seja na ida ao trabalho, seja no retorno para casa após um dia exaustivo.
***Caroline Rodrigues é jornalista há mais de 20 anos, tenta praticar esportes desde sempre, chora em filmes em que o cachorro morre no final e conta causos em boteco. É acadêmica de Nutrição e escreve sobre temas diversos. Resumindo: fala de tudo e se especializou em muitos nadas.


















