Iracema Paulino de Alencar

Somos muito mais do que as barreiras que enfrentamos

publicidade

Nossa história como mulheres é marcada por resistência, coragem e conquistas. Sabemos que nenhum dos direitos que hoje exercemos surgiu por acaso. Cada espaço que ocupamos, cada oportunidade conquistada e cada avanço em direção à igualdade são resultados da luta de gerações de mulheres que vieram antes de nós e se recusaram a aceitar que nossos destinos fossem determinados por preconceitos, convenções sociais ou limitações impostas pela sociedade.

Essa luta continua e fazemos parte dela. Apesar dos avanços, ainda convivemos com o machismo, o racismo, a homofobia e tantas outras formas de discriminação que restringem oportunidades e ferem a dignidade humana. Reconhecer essas desigualdades, denunciá-las e combatê-las é indispensável. Mas acredito que existe outra dimensão dessa história que merece ser valorizada: somos muito mais do que as barreiras que enfrentamos. Somos mulheres que trabalham, estudam, amam, cuidam, lideram, fazem escolhas e transformam a realidade todos os dias.

O empoderamento feminino, reconhecido internacionalmente como um compromisso para o desenvolvimento das sociedades, não pode permanecer apenas no campo das declarações. Desde os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio até a Agenda 2030 das Nações Unidas, a igualdade de gênero ocupa lugar central na construção de um mundo mais justo. E essa igualdade se concretiza quando temos liberdade para fazer nossas escolhas, condições para desenvolver nossas capacidades e oportunidades reais de participar das decisões que afetam nossas vidas.

Falo disso não apenas como uma reflexão sobre a sociedade, mas a partir da minha própria história. Sou mulher negra, enfermeira e há 27 anos compartilho minha vida com outra mulher. Construí minha trajetória pessoal, familiar e profissional sabendo que vivemos em uma sociedade na qual o preconceito ainda está presente. Sei da importância de resistir, de defender direitos e de enfrentar as discriminações. Mas acredito que nossa existência não pode ser definida exclusivamente pelas dificuldades que encontramos pelo caminho.

Leia Também:  Grito de Independência Financeira: o caminho para abandonar a poupança

Ao longo da vida, compreendi que resistir é necessário e que essa resistência se manifesta de muitas maneiras. Está na coragem de assumir nossas escolhas, na dedicação ao trabalho, na construção de uma família, na busca pelo conhecimento, na disposição de ocupar espaços e na responsabilidade com aquilo que fazemos. Não se trata de provar nosso valor a ninguém. Trata-se de exercer plenamente o direito de sermos quem somos, com dignidade, honestidade e liberdade.

Na enfermagem, profissão à qual dedico minha trajetória, essa reflexão encontra um significado especial. Somos uma categoria formada majoritariamente por mulheres, que historicamente desempenham um papel fundamental no cuidado à saúde da população. Mulheres que conciliam responsabilidades familiares, jornadas exigentes e desafios profissionais, muitas vezes sem o reconhecimento e as condições de trabalho que merecem.

A luta pela valorização da enfermagem é, portanto, parte dessa história mais ampla de busca por direitos e igualdade. Precisamos continuar enfrentando as desigualdades, defendendo condições dignas de trabalho, reconhecimento profissional e oportunidades de participação nos espaços de decisão. Mas precisamos igualmente reconhecer a capacidade técnica, o conhecimento, a liderança e o protagonismo das mulheres que fazem dessa profissão uma atividade essencial à sociedade.

Leia Também:  Split Payment e a nova forma de recolher tributos

Não acredito que exista uma única maneira de enfrentar as adversidades. Cada mulher carrega sua história, suas experiências e suas próprias formas de resistência. O que nos aproxima é o direito de sermos respeitadas em nossa diversidade e de encontrarmos oportunidades para construir nossos caminhos sem que nossa identidade seja transformada em obstáculo.

A verdadeira transformação social exige mais do que reconhecer as injustiças. Exige compromisso permanente para combatê-las, atitudes coerentes com os valores que defendemos e disposição para construir uma realidade na qual outras mulheres encontrem menos barreiras do que aquelas enfrentadas pelas gerações anteriores.

Continuarei acreditando na força da resistência, porque ela faz parte de quem somos e da história que nos trouxe até aqui. Mas acredito igualmente na força do trabalho, do conhecimento, do afeto, da solidariedade e da participação coletiva.

Somos muito mais do que as barreiras que enfrentamos. Somos as histórias que construímos, os direitos que defendemos e os caminhos que ajudamos a abrir para outras mulheres.

Iracema Paulino de Alencar é enfermeira e obstetra, mestre e doutoranda em Saúde Coletiva pela UFMT, com trajetória na gestão pública, assistência, docência e formação em saúde.

Compartilhe essa Notícia

publicidade

publicidade