A mortalidade materna é considerada um dos principais indicadores das condições de vida, do acesso à saúde e da qualidade da assistência prestada às mulheres. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), esse tipo de óbito corresponde à morte de uma mulher durante a gestação ou até 42 dias após o término da gravidez, por causas relacionadas ou agravadas pela gestação, excluindo-se causas acidentais.
No âmbito desta temática, pesquisadoras e pesquisadores do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal de Mato Grosso (ISC/UFMT) desenvolveram uma pesquisa que analisou a mortalidade de mulheres em idade fértil e a mortalidade materna em Cuiabá e no estado de Mato Grosso. O estudo intitulado “Mortalidade de mulheres em idade fértil e materna em Cuiabá e Mato Grosso: epidemiologia, serviços de saúde e compreensões de profissionais de saúde”, realizado entre 2023-2025, dados consolidados em 2025, teve como objetivo produzir evidências científicas capazes de subsidiar o aprimoramento das políticas públicas de saúde voltadas à saúde das mulheres.
Entre 2014 e 2023, foram contabilizadas 12.895 mortes de mulheres entre 10 e 49 anos, faixa etária considerada reprodutiva, o que representa uma média de cerca de 1,3 mil óbitos por ano (Sistema de Informação sobre Mortalidade, do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde). A série histórica mostra uma tendência de redução da mortalidade até 2019, interrompida pela pandemia de Covid-19. Em 2021, a taxa alcançou o maior patamar do período analisado. Embora os indicadores tenham recuado nos anos seguintes, ainda não retornaram aos níveis observados antes da emergência sanitária.
Um indicador importante que o estudo analisou é a Razão de Mortalidade Materna (RMM), que relaciona a ocorrência dos óbitos maternos segundo o número de nascidos vivos, permitindo a comparação entre diferentes lugares e períodos de tempo. Em 2023, Mato Grosso apresentou a maior RMM entre os estados do Centro-Oeste e a sétima maior RMM no país. Em oito dos dez anos analisados, a RMM de Mato Grosso foi mais elevada do que as observadas na Região Centro-Oeste e no Brasil.
O estudo revela que a mortalidade feminina se distribui de forma desigual pelo território mato-grossense. As maiores taxas médias foram registradas nas regiões de saúde Oeste Mato-Grossense, com polo em Cáceres, Centro Norte, com polo em Diamantino, e Baixada Cuiabana, onde está localizada a capital do estado.
Para a Professora Doutora Elyana Teixeira Sousa, do ISC/UFMT, os dados não devem ser interpretados apenas como indicadores de saúde, mas como expressão de desigualdades sociais históricas. “A morte materna acontece de forma profundamente desigual e revela uma iniquidade social injusta. Isso mostra que a riqueza produzida no estado não chega a todas as mulheres”, afirmou.
Os dados revelam desigualdades estruturais no acesso à saúde. Entre os achados, destacam-se disparidades relacionadas à raça e às condições sociais: mulheres pretas e indígenas apresentam maior risco de óbito em comparação às mulheres brancas. “As mulheres pretas têm maior risco de morrer do que as mulheres brancas, e isso não se explica por fatores biológicos, mas por uma iniquidade social marcada pelo racismo estrutural”, destacou.
De acordo com os dados levantados, cerca de 60% dos óbitos maternos eram de mulheres de raça/cor de pele parda e quase 8% eram de mulheres pretas. Mulheres brancas representam aproximadamente um quarto dos óbitos. Nos últimos anos do período, houve aumento do número de óbitos maternos de indígenas (veja o gráfico abaixo).
As diferenças também aparecem nas causas de morte. De acordo com o estudo, entre mulheres brancas e pardas predominam as causas externas, como acidentes e violências. Já entre mulheres pretas, as doenças infecciosas e parasitárias têm participação proporcional mais elevada. Entre as indígenas, destacam-se as doenças endócrinas, nutricionais e metabólicas.
Para a professora, reconhecer essas desigualdades é fundamental para a formulação de políticas públicas mais eficazes. Entre as ações necessárias estão o fortalecimento da atenção básica, a ampliação do acesso ao pré-natal e a garantia de serviços de saúde qualificados e humanizados.
Profa. Dra. Elyana Teixeira em entrevista para o Minuto Ciência do Tornar Comum/Propesq/UFMT.
Esses achados da pesquisa reforçam a urgência de políticas públicas voltadas à saúde da mulher com foco na equidade, na ampliação do acesso e na qualificação da assistência ao pré-natal, parto e pós-parto. Mais do que apresentar dados, a pesquisa contribui para dar visibilidade a um problema histórico e persistente.
Ao evidenciar as desigualdades que atravessam a mortalidade materna e de mulheres em idade fértil, o estudo destaca o papel estratégico da produção científica na formulação de políticas mais justas e eficazes. A expectativa das pesquisadoras é que os resultados subsidiem a tomada de decisões e impulsionem ações concretas voltadas à redução de mortes evitáveis, promovendo melhores condições de vida e cuidado para as mulheres em Cuiabá e em todo o estado de Mato Grosso.
Este trabalho foi coordenado por pesquisadoras do ISC/UFMT, em parceria com a Comissão Técnica de Investigação do Óbito Materno e a Gerência de Vigilância de Nascimentos e Óbitos (GEVINO) da Secretaria Municipal de Saúde de Cuiabá, com pesquisas de campo no Hospital Universitário Júlio Muller, no Hospital Geral de Cuiabá e no Hospital Santa Helena. O projeto contou ainda com a participação de docentes da Faculdade de Enfermagem, servidores da Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso, discentes dos Programas de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (PPGSC) e Nutrição (PPGNAM), além de estudantes de graduação dos cursos de Saúde Coletiva, Medicina e Nutrição da UFMT.
* Com informações de Maria Rita Lima, bolsista do Programa Institucional de Comunicação Pública da Ciência da PROPESQ/UFMT e revisão de Thiago Crepaldi, membro do Programa Institucional de Comunicação Pública da PROPESQ/UFMT e Jornalista – Reg. Prof. 0003512/MT.
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