Nas férias, muitas crianças encontram a primeira tela antes mesmo do café da manhã. O desenho na televisão passa para o celular, o celular dá lugar ao videogame e, quando a família percebe, boa parte do dia foi vivida a poucos centímetros de distância.
A ausência da rotina escolar ajuda a explicar essa mudança. Os filhos ficam em casa, mas os compromissos dos adultos continuam. Entre trabalho, tarefas domésticas e a falta de uma rede de apoio, os dispositivos acabam ajudando a preencher as horas livres.
Para a oftalmopediatra e especialista em estrabismo Dra. Giovanna Marchezine, a tecnologia, por si só, não é o problema. Ela diverte, aproxima amigos e familiares e pode contribuir para o aprendizado. O sinal de alerta aparece quando a tela deixa de ser uma das atividades das férias e passa a ocupar quase todo o espaço disponível.
“A tela não é a inimiga. O problema começa quando ela se torna a única opção de lazer da criança,” afirma a especialista em estrabismo, Marchezine.
Para a médica, mais importante do que observar apenas o número de horas é perceber o que está sendo deixado de lado. Sono, brincadeiras, movimento, convivência familiar e atividades ao ar livre não deveriam desaparecer da rotina para abrir espaço ao uso contínuo dos aparelhos.
“Nas férias, a tela passa a disputar espaço com experiências importantes da infância. A criança precisa de tempo para correr, brincar, conversar, olhar para longe e explorar outros ambientes,” pontua.
Quando os olhos começam a sentir
Celulares e tablets mantêm o olhar concentrado em uma distância muito próxima. Quando está envolvida com um jogo ou uma sequência de vídeos, a criança também tende a piscar menos e pode permanecer durante longos períodos na mesma posição.
Ao final do dia, esse esforço pode se manifestar por meio de ardência, ressecamento, lacrimejamento, visão embaçada, sensação de peso nos olhos e dor de cabeça.
Nem sempre, porém, a criança consegue explicar o desconforto.
“Uma criança pequena dificilmente vai dizer que está com fadiga visual. Muitas vezes, ela demonstra isso esfregando os olhos, ficando irritada, perdendo a concentração ou aproximando ainda mais o rosto da tela,” explica a médica.
O comportamento também pode revelar alterações que não estão relacionadas somente ao tempo de exposição.
Apertar os olhos para enxergar, inclinar a cabeça, cobrir um dos olhos, aproximar-se excessivamente da televisão ou apresentar dores de cabeça frequentes são sinais que merecem avaliação.
“Nem toda queixa visual deve ser atribuída automaticamente ao celular. O aumento do uso pode apenas tornar mais evidente uma dificuldade que já existia. Quando os sintomas são frequentes, é importante pais ou responsáveis investigar,” alerta.
Limite de tela por faixa etária
Menores de 2 anos
A exposição deve ser evitada. Nessa fase, a criança se desenvolve principalmente por meio da interação com os adultos, dos movimentos e da exploração do ambiente.
Dos 2 aos 5 anos
Até uma hora por dia, preferencialmente com acompanhamento de um adulto e conteúdo adequado à idade.
Dos 6 aos 10 anos
Entre uma e duas horas por dia, com supervisão dos responsáveis e pausas ao longo do uso.
Dos 11 aos 18 anos
Entre duas e três horas por dia para atividades recreativas, evitando o uso durante a madrugada.
“Não é porque existe um limite de uma hora que a criança precisa usar essa hora todos os dias. E também não é adequado concentrar todo o período de uma só vez. Quanto menor a criança, maior deve ser o acompanhamento dos adultos — orienta a oftalmopediatra.
Também é preciso considerar a finalidade do uso. Uma videochamada com os avós, uma atividade escolar e duas horas alternando vídeos curtos não produzem exatamente a mesma experiência. Conteúdo, contexto, acompanhamento e frequência também importam.
Pausas e atividades fora das telas
Durante o período de férias, os limites funcionam melhor quando não aparecem apenas como proibições. Em vez de retirar o aparelho de forma repentina, os responsáveis podem estabelecer momentos para o uso e avisar quando o tempo estiver próximo do fim.
Criar pausas ao longo do dia também ajuda a interromper o esforço visual contínuo. A criança pode levantar, caminhar, beber água ou olhar pela janela para direcionar a visão a uma distância maior.
“A pausa não precisa ser uma regra complicada. O mais importante é evitar que a criança permaneça horas seguidas olhando para perto, sem mudar de posição e sem descansar os olhos,”esclarece a médica.
A distância do aparelho, a iluminação e a postura também fazem diferença. O celular não deve permanecer excessivamente próximo do rosto, e o uso prolongado em ambientes escuros pode aumentar o desconforto. Durante as refeições e próximo ao horário de dormir, os aparelhos também devem perder espaço.
Fora das telas, não é necessário montar uma programação cara ou preencher todos os minutos das férias. Uma ida à praça, uma caminhada, uma volta de bicicleta ou uma brincadeira no quintal já ajudam a modificar a rotina visual. Dentro de casa, desenhar, montar brinquedos, preparar uma receita ou criar histórias também são alternativas. Até os momentos de tédio podem estimular a criança a imaginar novas formas de brincar.
“Quando existe apenas a ordem para desligar o celular, a criança enxerga uma proibição. Quando existe um convite para outra atividade, ela percebe que há diferentes maneiras de aproveitar o tempo,” observa Giovanna.
O exemplo dos adultos também participa dessa construção. Refeições e momentos em família nos quais todos deixam os aparelhos de lado costumam produzir mais resultado do que regras direcionadas somente aos filhos.
Para a especialista, não se trata de organizar férias perfeitas nem de afastar completamente as crianças da tecnologia. A proposta é impedir que todas as experiências do período sejam substituídas por uma única forma de entretenimento.
“O problema não é a criança olhar para uma tela em alguns momentos. É passar tanto tempo diante dela que deixe de olhar para o mundo,” conclui.

























