Entre as ruas 13 de Junho e Senador Metelo, no Porto, um dos bairros mais antigos de Cuiabá, um imponente prédio amarelo e branco guarda mais de um século da história da Capital. Com arquitetura eclética e elementos neoclássicos e barrocos, o imóvel já foi escola, tornou-se referência do artesanato mato-grossense e, agora, se prepara para uma nova fase como sede do Museu de Arte de Mato Grosso.
Tombado como patrimônio histórico, o prédio acompanhou diferentes momentos da história cuiabana. Primeiro, abrigou o Grupo Escolar Senador Azeredo. Décadas depois, foi transformado na Casa do Artesão e, atualmente, passa por adequações para receber o novo museu.
Segundo a Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer de Mato Grosso (Secel-MT), a expectativa é que o espaço seja aberto à visitação no primeiro semestre de 2027, após a conclusão das intervenções necessárias para a instalação do museu.
A história do imóvel começou em 10 de setembro de 1910, quando foi inaugurado o Grupo Escolar Senador Azeredo, construído durante a gestão do então presidente do Estado, Pedro Celestino Corrêa da Costa. A unidade funcionou no local durante 65 anos.
De acordo com o historiador Francisco das Chagas, a construção fazia parte de um projeto para estabelecer dois polos educacionais em Cuiabá: um no primeiro distrito, correspondente à região central, e outro no segundo distrito, o Porto. A iniciativa também contemplou a construção do Palácio da Instrução, onde funcionou a Escola Normal Pedro Celestino.
“Foi um avanço muito importante na educação do estado de Mato Grosso, porque, nessa época, o presidente do Estado mandou vir de São Paulo renomados professores para fazer uma transformação no ensino do Estado”, explicou.
Naquele período, o Porto funcionava como uma das principais portas de entrada de Cuiabá, com a chegada de embarcações pelo Rio Cuiabá. Por isso, o Grupo Escolar Senador Azeredo atendia não apenas moradores da região, mas também estudantes de Várzea Grande, que, à época, ainda pertencia ao município de Cuiabá.
Conforme Francisco, a região também concentrava famílias de maior poder aquisitivo, principalmente ao longo da Avenida 15 de Novembro, marcada pela presença de casarões centenários.
Depois de décadas funcionando como instituição de ensino, o prédio ganhou uma nova finalidade. Em 1975, por iniciativa de Maria Lygia de Borges Garcia, então primeira-dama do Estado, o imóvel passou a abrigar a Casa do Artesão.
“Em 15 de novembro de 1983, o prédio foi tombado pela Fundação Cultural de Mato Grosso, passando a fazer parte do Patrimônio Artístico e Cultural do Estado. E, anexo à Casa do Artesão, no mesmo ano, foi construído [o novo prédio da] Escola Senador Azeredo, para que a antiga escola passasse a abrigar a Casa do Artesão”, afirmou o historiador.
A criação da Casa do Artesão teve como objetivo valorizar a mão de obra e a produção artesanal de Mato Grosso.
Segundo Francisco das Chagas, na época, aproximadamente 200 artesãos estavam cadastrados. A Casa reunia cerca de 2 mil peças produzidas com materiais como cerâmica, madeira, fibras, couro e tecidos. O espaço também comercializava redes, rendas, doces e outros produtos característicos da cultura mato-grossense.
Para o historiador, a transformação do prédio em Casa do Artesão representou um marco para a produção cultural do Estado, ao criar uma vitrine para trabalhadores que, até então, tinham pouco espaço para apresentar e comercializar suas obras.
“Isso é muito importante, porque foi algo inédito no Estado. A Casa do Artesão foi criada justamente para valorizar a mão de obra existente em Mato Grosso, que era desconhecida por públicos de outros estados e de outros países”, afirmou.
“E esse modelo permitia que o artesanato se transformasse em fonte de renda para muitas famílias e, ao mesmo tempo, contribuía para a preservação de técnicas tradicionais”, acrescentou.
A trajetória cultural do imóvel ganhou outro capítulo em 1982, quando Yone Azevedo de Campos, esposa do então governador Frederico Soares de Campos, criou o Museu do Artesanato, que reunia peças representativas das manifestações culturais de Mato Grosso.
A Casa do Artesão funcionou no local até 2018, quando encerrou suas atividades no prédio. O imóvel permaneceu fechado até 2026, quando foi definido como sede do novo Museu de Arte de Mato Grosso.
Memória preservada
Apesar das diferentes funções que recebeu ao longo de mais de um século, o prédio ainda conserva elementos de sua construção original. Segundo Francisco, a linha construtiva é simples e segue o padrão das obras públicas executadas em Mato Grosso no início do século XX.
“A fachada principal apresenta um frontão enriquecido com balaústres e adornos metálicos, com uma porta única e central. O espaço arquitetônico interior é bem definido, podendo-se distinguir o núcleo de construção de onde se faz o acesso para as duas alas da escola, inclusive ao pátio interno”, disse.
Para o historiador, preservar esses elementos é fundamental para que a nova função do imóvel não apague aquilo que ele representa para a história de Cuiabá.
“Não se deve desconfigurar um prédio tão importante como aquele. Se você observar, ele tem as portas originais, as janelas originais, as paredes originais, muro, gradil. Tudo é original dentro daquele prédio. Manter essa continuidade de preservação dos elementos históricos valoriza muito mais a nossa história e preserva o imóvel para as futuras gerações”.
Agora, a expectativa é que o imóvel volte a receber pessoas, mas com uma finalidade diferente.
“Eu vejo isso como um importante aparato para a preservação da história, a divulgação das artes, a valorização dos profissionais que existem, que produzem muito material artístico”, afirmou.
Adaptações para novo uso
A transformação do prédio em Museu de Arte de Mato Grosso passou por uma série de discussões sobre a destinação do prédio.
De acordo com Robson de Carvalho, superintendente de Preservação de Patrimônio Histórico e Museológico da Secel-MT, entre 2021 e 2024 foram apresentadas diferentes possibilidades para a ocupação do espaço, incluindo uma solicitação da Polícia Militar.
Durante esse processo, a Secel apresentou a proposta de instalação do museu e conseguiu convencer a Secretaria de Planejamento e Gestão do Estado de Mato Grosso (Seplag-MT) a transferir o imóvel para a área da cultura.
Segundo o superintendente, o Museu de Arte estava sem sede e possuía um acervo considerado precioso, o que levou a Secel a identificar a antiga Casa do Artesão como um espaço adequado para receber a instituição. O prédio passou para a responsabilidade da Cultura em 2024.
O projeto de adequação começou com estudos no início do ano, enquanto as obras tiveram início há aproximadamente três meses. O investimento informado pelo superintendente é de R$ 3,178 milhões, em recurso federal destinado à adequação do espaço.
Apesar do valor e da mudança de finalidade, a proposta não prevê alteração da arquitetura histórica.
“Não vai ser mudado nada. Vai ser preservada a arquitetura do local, vai ser feita manutenção do que existe lá. O que haverá é uma expografia. As adaptações necessárias para que o prédio possa receber o museu”, afirmou.
Entre as adequações está a instalação de uma iluminação específica para as obras de arte, com um sistema que permitirá movimentar as luminárias de acordo com a obra e o efeito necessário, evitando intervenções permanentes na estrutura.
Também serão verificadas as instalações hidrossanitárias e os banheiros para que estejam de acordo com as normas atualizadas. A acessibilidade, que já existe no prédio, será reforçada com os itens necessários para atendimento às pessoas com deficiência.
Além disso, serão feitas adequações relacionadas à prevenção e ao combate a incêndios, com o objetivo de tornar o prédio adequado às exigências do Corpo de Bombeiros.
Exposições e atividades
Conforme o superintendente, o espaço terá ainda uma função acadêmica, permitindo que pessoas possam atuar e aprender a lidar com o acervo museológico, além de outros usos.
“A gente ainda pretende colocar atividades culturais pertinentes à arte de Mato Grosso, como cursos e oficinas para todas as idades”, afirmou.
A expectativa é que as obras ocorram ao longo deste ano e que o local possa começar a funcionar com visitação no primeiro semestre de 2027.
Para Francisco, a importância do novo museu vai além da exposição das obras. O espaço também poderá contar a própria história do imóvel, fazendo com que quem passe pelas salas conheça as diferentes funções que o prédio exerceu.
Segundo ele, estarão disponíveis no local informações sobre as técnicas construtivas, fotografias antigas, pessoas que passaram pelo local e aqueles que participaram de sua criação e transformação.
A nova função também é vista pelo historiador como uma continuidade da trajetória do imóvel. Primeiro, o espaço foi criado para levar educação à população. Depois, tornou-se um local de divulgação e valorização do artesanato mato-grossense. Agora, deverá receber obras de arte e atividades culturais.
“Eu creio que a criação desse novo espaço, também voltado para a valorização da cultura e das artes, faz com que o prédio tenha um renascimento”, afirmou.
Na avaliação do historiador, a mudança mantém uma linha de continuidade com aquilo que diferentes pessoas fizeram pelo imóvel ao longo do tempo.
“Esse espaço será novamente a vitrine das produções artísticas aqui de Mato Grosso”, finalizou.




























