A indústria mato-grossense chegou a 203,5 mil trabalhadores formais em 2025, segundo dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), analisados pelo Observatório de Mato Grosso. O número apresenta um crescimento de 5,6 mil trabalhadores em relação aos 197,9 mil registrados em 2024. No mesmo período, o número de estabelecimentos industriais passou de 16,5 mil para 16,8 mil.
O setor representa atualmente 16% do emprego formal de Mato Grosso e responde por 15% do Produto Interno Bruto (PIB) estadual. O crescimento da indústria ocorre em um mercado de trabalho aquecido e amplia também a necessidade de profissionais preparados para acompanhar a transformação dos processos produtivos.
Apesar do crescimento do emprego industrial, o nível de escolaridade dos profissionais ainda apresenta espaço para avanços. O Anuário da Indústria de Mato Grosso 2026 mostra que, no recorte de 2024, apenas 18,1 mil dos 197,9 mil trabalhadores do setor possuíam ensino superior completo, o equivalente a 9,17% do total. Em 2025, este número subiu para 18,7 mil, o que equivale em, aproximadamente, um em cada onze funcionários. No mesmo recorte, 54,5% do quadro industrial possuía ensino médio completo.
Perfil profissional mostra espaço para ampliar formação superior
A demanda por qualificação para os próximos anos ajuda a dimensionar esse desafio. Segundo o Mapa do Trabalho Industrial, Mato Grosso precisará qualificar 210 mil pessoas entre 2026 e 2027. Desse total, 31 mil correspondem a novos profissionais que deverão ingressar no mercado, enquanto 179 mil trabalhadores que já estão empregados precisarão atualizar suas competências.
Segundo a diretora regional do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial de Mato Grosso (Senai MT), Fernanda Campos, a formação dos profissionais precisa acompanhar a evolução tecnológica do setor.
“A indústria vive uma transformação sem precedentes, sendo impulsionada pela inovação, pela digitalização e pelo aumento da complexidade dos processos produtivos. Os dados do Anuário revelam que ainda existe um espaço importante para ampliar a presença de profissionais com ensino superior nas empresas. Investir em educação alinhada às necessidades da indústria significa fortalecer a produtividade, acelerar a inovação e preparar Mato Grosso para um novo ciclo de desenvolvimento econômico”, afirma.
Inteligência artificial, automação, análise de dados, digitalização dos processos produtivos, manufatura avançada e sustentabilidade estão entre as transformações que aumentam a complexidade de determinadas atividades e criam novas demandas de competências.
Vagas mostram presença de formação superior
A necessidade de diferentes perfis profissionais também aparece no mercado de trabalho. Um levantamento realizado pelo Instituto Euvaldo Lodi de Mato Grosso (IEL MT) a partir de 2,3 mil vagas publicadas na plataforma Emprega.Ind em julho e agosto de 2026 identificou 288 oportunidades, o equivalente a 12,3% do total, que indicavam formação de nível superior completa ou em andamento.
O levantamento considera a informação de escolaridade registrada nas vagas e não permite afirmar, isoladamente, que a graduação era obrigatória em todas as oportunidades. O dado mostra, porém, a presença da formação superior entre os perfis buscados pelas empresas que utilizaram a plataforma no período.
O resultado também ajuda a contextualizar o desafio de qualificação. Enquanto 9,17% dos trabalhadores da indústria possuíam graduação completa no recorte de 2024 do Anuário, 12,31% das vagas analisadas pelo IEL MT em julho e agosto de 2026 indicavam ensino superior completo ou em andamento. Os indicadores não representam o mesmo universo (o primeiro retrata o quantitativo de trabalhadores e o segundo, as vagas publicadas em determinado período), mas ajudam a mostrar como a formação superior está presente entre as oportunidades disponíveis no mercado.
Mulheres ainda são minoria na indústria
O Anuário também evidencia outro desafio para o setor industrial mato-grossense: a participação feminina no mercado de trabalho.
No recorte utilizado pela publicação, as mulheres ocupavam 22,3% dos empregos formais da indústria em Mato Grosso. Dos 203 mil trabalhadores considerados no levantamento, 46,3 mil eram mulheres, enquanto os homens somavam 157,1 mil.
Para a pró-reitora do Centro Universitário do Senai Mato Grosso (UniSenai MT), Ana Cristina Caldart, ampliar a participação feminina também passa pela abertura de caminhos para que mais mulheres ingressem em áreas de maior especialização.
“A nova indústria valoriza conhecimento, inovação, capacidade analítica e domínio tecnológico. São competências que independem de gênero. Quanto mais mulheres ingressarem em cursos superiores voltados à indústria, maior será a diversidade de ideias, a capacidade de inovação das empresas e a formação de lideranças preparadas para os desafios da economia do futuro”, destaca.
A analista de negócios Letícia Barros faz parte do grupo de mulheres que buscou uma formação em uma área ligada à transformação tecnológica. Ela conta que escolheu o curso de Análise e Desenvolvimento de Sistemas por se identificar com o setor e por enxergar o desafio de ingressar em uma área ainda predominantemente masculina.
“Eu tenho apenas familiares homens na área da tecnologia, mas sempre gostei de estar por dentro do assunto. Entendi que eu poderia e conseguiria ser uma analista de sistemas. Foi um período bastante enriquecedor, mesmo voltando para a sala de aula oito anos após a minha primeira formação em biologia. Sair [do UniSenai] graduada, com bons contatos, com um suporte e amizades do meio me faz muito feliz. E não é um clichê: a instituição me deu a oportunidade de fazer vínculos com pessoas muito boas da área de tecnologia!”, ressalta.
Hoje, Letícia atua em um grupo composto por três empresas do ramo de veterinária. Ela é gestora de área e lidera uma equipe composta por 23 pessoas.
“A tecnologia se tornou uma ferramenta para que eu atue melhor neste setor que estou há 12 anos. Hoje, consigo observar, entender e remodelar processos”, conclui.
Formação superior alinhada às necessidades da indústria
Para responder às diferentes demandas do setor produtivo, o Centro Universitário do Senai Mato Grosso (UniSenai MT) oferece cursos superiores desenvolvidos em parceria com a indústria e estruturados para formar profissionais preparados para as transformações do mercado.
Atualmente, a instituição oferta 14 graduações: Administração, Agrocomputação, Análise e Desenvolvimento de Sistemas, Automação Industrial, Engenharia de Controle e Automação, Engenharia de Produção, Engenharia de Software, Gestão da Produção Industrial, Gestão de Recursos Humanos, Gestão do Agronegócio, Logística, Processos Gerenciais, Segurança Cibernética e Segurança da Informação. Para 2027, o UniSenai MT contará com mais dois cursos: Ciência de Dados e Inteligência Artificial e Mecatrônica Industrial.
As formações priorizam metodologias práticas, desenvolvimento de projetos reais e integração com as necessidades das empresas. Recentemente, o curso de Análise e Desenvolvimento de Sistemas da unidade de Rondonópolis conquistou conceito 4 na avaliação do Ministério da Educação (MEC).
Duas graduações são reconhecidas com conceito 5: Agrocomputação e Automação Industrial.
Um desafio que também representa oportunidade
Os números mostram que a indústria mato-grossense cresce ao mesmo tempo em que amplia a necessidade de profissionais preparados para diferentes níveis de complexidade. A projeção de qualificação para os próximos dois anos, por sua vez, alcança 210 mil pessoas, entre novos profissionais e trabalhadores que já estão no mercado.
Para as mulheres, ampliar a participação nessas diferentes áreas representa uma oportunidade de ocupar espaços ainda pouco representados no setor industrial. O desafio passa não apenas pela formação, mas também pela criação de caminhos para que mais profissionais possam ingressar, permanecer e avançar em carreiras ligadas à indústria.


























