A Bolívia deu novo passo para viabilizar um corredor rodoviário internacional que deve ampliar a integração logística e comercial com Mato Grosso. O presidente boliviano Rodrigo Paz assinou, nesta sexta-feira (31), um termo de cooperação para a construção de uma estrada entre San Ignacio de Velasco, no território boliviano, e Vila Bela da Santíssima Trindade, na região oeste mato-grossense.
O trecho previsto do lado boliviano terá 129 quilômetros de extensão. Do lado brasileiro, as obras de ligação já estão em andamento. A proposta é criar uma rota capaz de conectar a Bolívia ao Oceano Atlântico, por meio de Porto Velho, em Rondônia, e abrir ao Brasil uma nova alternativa de acesso ao Oceano Pacífico, passando pelo território boliviano.
A assinatura ocorreu durante as comemorações dos 278 anos de San Ignacio de Velasco, cidade boliviana localizada próxima à fronteira com Mato Grosso. O evento reuniu autoridades, empresários, produtores rurais e representantes do setor logístico dos dois países.
Além da pavimentação da rodovia, o projeto prevê a instalação de um posto aduaneiro alfandegado, considerado estratégico para facilitar o fluxo de mercadorias, reduzir entraves burocráticos e fortalecer as relações comerciais entre Brasil e Bolívia.
A articulação política para tirar o projeto do papel também contou com a participação do deputado estadual Valmir Moretto, citado por lideranças da região como um dos defensores da ligação rodoviária entre os dois países. A mobilização envolve ainda o Governo de Mato Grosso e representantes dos municípios da faixa de fronteira.
Rota usada há anos
A ligação entre as duas regiões já é utilizada por motoristas, produtores e caminhoneiros, mas as condições da estrada de terra sempre foram apontadas como um dos principais obstáculos, especialmente no período chuvoso.
O motorista Jair Barros dos Santos, que percorre a rota a trabalho há cerca de 15 anos, relatou que a estrada já enfrentou atoleiros e períodos de interdição durante as águas. Para ele, o avanço do projeto representa uma mudança aguardada há décadas por quem depende da travessia.
A nova rota também é vista pelo setor produtivo como uma forma de reduzir custos logísticos. O empresário Eraí Maggi defendeu que a ligação pode beneficiar produtores dos dois lados da fronteira, especialmente pela proximidade com estruturas já existentes em Porto Velho.
Segundo ele, parte da produção boliviana percorre atualmente distâncias maiores para chegar aos portos, enquanto a conexão com Mato Grosso pode encurtar trajetos e melhorar a competitividade no transporte de grãos.
Acesso ao Pacífico
O presidente da Comissão de Integração Brasil-Bolívia, Pedro Lacerda, afirmou que a pavimentação e a instalação da aduana devem ampliar a conexão com portos do Oceano Pacífico, como Arica e Iquique, no Chile.
De acordo com Lacerda, a nova rota pode representar uma redução de quase 2 mil quilômetros em relação a outros corredores logísticos utilizados atualmente para exportação.
O corredor também pode impactar o comércio de insumos agrícolas. Produtores de Mato Grosso poderão ter acesso mais direto à ureia produzida na Bolívia, fertilizante amplamente utilizado na agricultura. Em contrapartida, caminhões bolivianos poderão transportar produtos e retornar carregados com soja para abastecer indústrias de óleo e outros segmentos.
Para Cristian Méndez, vice-governador da província de José Miguel de Velasco, a integração entre Mato Grosso e Santa Cruz tem potencial para transformar a região em um eixo estratégico de distribuição de cargas entre os oceanos Atlântico e Pacífico.
A expectativa é que, com a conclusão dos trechos e a estruturação da aduana, a fronteira entre Vila Bela da Santíssima Trindade e San Ignacio de Velasco passe a ter papel mais relevante no comércio internacional e no escoamento da produção agrícola da América do Sul.


























